Sempre preferi as claras

Foi quando decidiu morar sozinha que Nahomy perdeu o interesse em se adequar aos dias do restante da humanidade.

Pertencia ao mesmo planeta que os demais mortais, trabalhava em horário comercial como eles, ia às compras com ecobags similares, vestia marcas de varejo porque ninguém a atendia nestes locais, ainda mais com fones no ouvido, podia sair de lá sem ser notada como entrou.

Seu interesse por alguém era diretamente proporcional ao tanto que se parecia com os conceitos tradicionais de sucesso: casamento, filhos, carro, Disney, golden retriever.

Constantemente, passava algum tempo brincando com seus cachos mel de Sol, entre devaneios que a faziam chegar em uma simples conclusão sobre sua silenciosa existência. Daqui alguns anos, serão mais comuns pessoas como eu, mas até lá, prefiro continuar vivendo sem ter que me explicar aos outros, é muito cansativo e me aborrece. 

O ar de soberba era uma aura que ela exalava como um campo de força. Poucos se atreviam a abordá-la no bar, mesmo sentada sozinha com uma presença corporal ereta que a fazia parecer mais longilínea que todos. Às vezes, sacava ali mesmo um livro entre o falatório e o cheiro de whisky. Outras, apenas observava pacificamente. Uma vez, ficou olhando para seu reflexo no espelho ao fundo do bar, entre prateleiras de garrafas e frutas picadas.

Em uma manhã, por volta das seis e meia, tomava café no 18 do Forte, quando um elegante semblante masculino passou por ela sorrindo e disse:

-Eu te entendo, carioca. Sempre fui mais das claras do que das gemas.


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