Livro: A vida invisível de Eurídice Gusmão

Comecei 2026 com A vida invisível de Eurídice Gusmão achando que ia ler “mais um romance histórico brasileiro” (julgamento apressado, eu sei). Terminei com aquela sensação deliciosa de nossa, isso aqui é muito bom. Não no sentido “uau, sofrimento devastador”, mas no sentido “nossa, a vida é exatamente assim”. Ela acontece. Enquanto ninguém está olhando.

A leitura é extremamente agradável — fluida, inteligente, engraçada — e o reconhecimento vem nos detalhes do dia a dia, daqueles pequenos, quase bobos, mas que somados explicam muita coisa. E sendo mulher… bom, aí o reconhecimento vem em ondas: as vezes em que fomos silenciadas, desvalidadas, interrompidas, ignoradas com elegância (que é pior do que ignorar escancarado). Nada vira discurso; tudo vira cena, comentário atravessado, expectativa alheia disfarçada de “é só assim que as coisas são” (👀 spoiler: não são).

“Eurídice sabia fazer muitas coisas, mas ninguém parecia interessado em saber disso.”
(e esse “ninguém” é sempre coletivo, educado, bem-intencionado…)

O livro é inteligente sem ser pedante (graças a Deus). Ele não tenta provar nada — observa. Você ri, percebe do que está rindo, ri de novo (meio sem graça, mas ri). Os personagens são muito diferentes entre si, cada um vindo de um contexto apresentado com cuidado, sem pressa. Quando vê, você já entendeu quase todo mundo — mesmo quem erra feio, mesmo quem você pensa “não faria isso nem a pau”. Quase todos. Porque os covardes… esses não. A empatia não chega, nem no final, e está tudo bem. Nem toda ausência de coragem merece absolvição; alguns merecem só um “é… você podia ter feito melhor”.

“A vida ia passando, e Eurídice tinha a sensação de estar sempre chegando atrasada.”
(quem nunca, né?)

Não há grandes cenas épicas nem viradas cinematográficas. A força está na vida acontecendo em silêncio: conversas interrompidas, portas que se fecham sem barulho, talentos adiados, sonhos empurrados com a barriga. (ploc. ploc. ploc.) Quando você percebe, já foi.

Sessão de Biblioterapia

Por que esse livro faz tão bem?

Nem toda leitura terapêutica precisa ser intensa ou dramática. Algumas fazem bem porque organizam o que a gente já sentia, mas não tinha nome. Aqui, o reconhecimento vem sem pancada (nada de trauma porn): você pensa “ok, então não era coisa da minha cabeça” — e segue. A empatia funciona como exercício real (entender contextos sem passar pano) e fica uma pergunta quietinha, mas insistente: em que momentos da minha vida eu normalizei silêncios que não deveriam ser normais? Sem culpa, sem drama — só consciência.

Do livro ao filme (Netflix)

A história ganhou adaptação para o cinema com A Vida Invisível, dirigido por Karim Aïnouz, disponível na Netflix. O filme desloca o foco para a relação entre as irmãs e intensifica o tom emocional (menos humor, mais impacto visual), mas mantém o coração da história: mulheres vivendo, sentindo e sendo atravessadas por decisões tomadas por outros.

Dica terapêutica honesta: leia o livro primeiro (ele é mais irônico, mais arejado). Depois veja o filme como extensão sensorial — outra porta de entrada para a mesma experiência.

Detalhes, prêmios & recepção

  • Autora: Martha Batalha
  • Editora: Companhia das Letras
  • Ano: 2016
  • Prêmios (livro): Finalista do Prêmio Jabuti; vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (Autor Estreante)
  • Avaliações: Leitores costumam destacar a fluidez, o humor e a identificação (média alta em plataformas como Goodreads e Skoob)
  • Prêmios (filme): Vencedor do Un Certain Regard no Festival de Cannes (2019)

Martha Batalha escreve com leveza, humor e precisão. Não levanta a voz, não dramatiza — observa e acerta. Um começo de ano excelente, daqueles que dão vontade de continuar lendo (e pensando, e rindo sozinha, e mandando áudio comentando trechos).


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