A dor do outro não some quando a gente cresce

(nem quando vira líder)

Começando pela vida pessoal

Esse texto que eu li esses dias falava de algo simples e muito verdadeiro: não existe dor maior ou menor. Existe dor. E talvez o que mais tenha me tocado não tenha sido a frase em si, mas o quanto ela faz sentido na vida pessoal e o quanto ela parece desaparecer em certos ambientes profissionais.

Fora do trabalho, a gente aprende a observar. Aprende a perceber quando alguém muda o jeito de falar, quando responde diferente, quando fica mais quieto. Aprende também, com o tempo, a reconhecer quem respeita nossos sentimentos e quem prefere minimizar, ignorar ou até ridicularizar. Não é algo racional, é quase físico. A gente sente quando é acolhido e quando não é.

Quando a empatia fica do lado de fora do escritório

Curiosamente, basta atravessar a fronteira do ambiente corporativo para essa sensibilidade começar a parecer inconveniente. Como se sentir fosse permitido até certo ponto, desde que não atrapalhe a meta, o prazo ou a reunião da semana. Emoções passam a ser vistas como excesso. Cansaço vira falta de comprometimento. Tristeza vira fragilidade. E ouvir alguém dizer que “isso não é nada” se torna mais comum do que deveria.

Existe uma ideia silenciosa de que maturidade profissional é sinônimo de engolir o que se sente. Como se crescer na carreira exigisse aprender a não demonstrar, não falar, não sentir. Como se o cargo viesse acompanhado de um pacote invisível de neutralização emocional. E talvez por isso seja tão comum ver pessoas em posições mais altas esquecendo completamente das dores que já tiveram, dos medos que já sentiram e das inseguranças que já carregaram quando estavam em outros lugares da jornada.

Liderança não apaga a história emocional de ninguém

Ninguém vira líder sem antes ter sido liderado. Ninguém chega a um cargo de decisão sem ter passado por algum nível de vulnerabilidade. Ainda assim, algo se perde no caminho. A empatia vai ficando para trás, como se fosse incompatível com autoridade, quando na verdade deveria ser parte essencial dela.

Vale deixar algo claro antes de seguir. Empatia não é ausência de limite. Não é aceitar qualquer comportamento, não é ignorar problemas recorrentes, não é confundir acolhimento com permissividade. Existem situações que pedem firmeza, responsabilidade e consequência. Isso não está em discussão. O ponto é outro. Invalidar sentimentos não torna ninguém mais profissional. Só torna o ambiente mais duro e, muitas vezes, mais adoecedor.

O que o trabalho científico já entende sobre emoções

A psicologia organizacional já mostrou algo que a vida prática confirma todos os dias: emoções influenciam diretamente a forma como trabalhamos, decidimos, nos relacionamos e performamos. Pessoas que se sentem ouvidas tendem a se engajar mais. Ambientes onde existe espaço para conversa honesta costumam ter menos conflitos silenciosos, menos desgaste acumulado e mais confiança.

Ignorar sentimentos não elimina o problema. Apenas empurra tudo para debaixo do tapete até que alguém tropece. E quase sempre tropeça.

Às vezes, o desconforto do time também passa por nós

Talvez a parte mais desconfortável dessa conversa seja admitir que o mal-estar do time pode ter várias origens e que nós mesmos podemos ser uma delas. Uma fala atravessada, uma cobrança mal colocada, uma ironia fora de hora ou até um silêncio prolongado podem gerar impactos que não são óbvios para quem está no comando, mas são muito claros para quem recebe.

Empatia também é ter coragem de se perguntar como nossas atitudes reverberam no outro, mesmo quando a intenção era boa.

Empatia é habilidade e habilidade se desenvolve

A boa notícia é que empatia não é um traço fixo de personalidade. É uma habilidade. E como toda habilidade, pode ser treinada e aprimorada no dia a dia. Pequenos ajustes de postura já fazem diferença real na forma como nos relacionamos no trabalho e fora dele.

Algumas práticas simples para desenvolver empatia

  • Pausar antes de reagir e evitar respostas automáticas, principalmente em momentos de tensão.
  • Ouvir com a intenção de entender, não apenas de corrigir ou responder rapidamente.
  • Trocar frases que minimizam a experiência do outro por perguntas que abrem espaço para a escuta.
  • Separar sentimento de comportamento, reconhecendo que sentir é legítimo, enquanto agir exige responsabilidade.
  • Lembrar que dor não é competição e que o que parece pequeno para um pode ser enorme para outro.

Empatia não tira autoridade. Ela qualifica a liderança. Não enfraquece decisões difíceis, apenas muda a forma como elas são comunicadas e sustentadas.

Leituras, filmes e histórias que ajudam a ampliar o olhar

Para quem quer aprofundar esse tema de forma leve e acessível, algumas obras ajudam bastante a desenvolver esse olhar mais humano.

Leituras

  • A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown
  • Atlas do Coração, de Brené Brown
  • Inteligência Emocional, de Daniel Goleman

Filmes e séries

  • Divertida Mente, que explica emoções melhor do que muito treinamento corporativo
  • Ted Lasso, que fala de liderança, empatia e humanidade com humor e profundidade
  • O Escândalo, sobre culturas tóxicas e silêncio organizacional)

Talvez a pergunta não seja se sentimentos cabem no trabalho. Talvez a pergunta seja que tipo de pessoas e de culturas estamos formando quando ensinamos adultos a fingir que não sentem nada.

Empatia não nos torna menos profissionais. Nos torna mais humanos. E, curiosamente, times humanos costumam funcionar melhor.

Fontes:
https://cclinnovation.org/wp-content/uploads/2020/03/empathyintheworkplace.pdf
https://www.researchgate.net/publication/361952690_Empathy_in_Leadership_How_It_Enhances_Effectiveness
https://bibonline.unifeso.edu.br/pergamumweb/downloadArquivo?nomeExtensao=.pdf&vinculo=SDZGMEk3V1kyOWtSVzF3Y21WellUMHpORGttWVdObGNuWnZQVGcxTURnMkpuTmxjVkJoY21GbmNtRm1iejB4Sm5ObGNWTmxZMkZ2UFRnbWEyRnlaR1Y0UFU0bWJHOWpZV3hCY25GMWFYWnZQVU5QVFZCQlVsUkpURWhCVFVWT1ZFOG1ibTl0WlVOaGJXbHVhRzg5TURBd01ETTRMekF3TURBek9ETXlMbkJrWmc9PVQ5MTA1QTk%3D&
https://qualifiquei.com.br/blog/gestao/empatia-guia-completo-trabalho/
https://etalent.com.br/artigos/autoconhecimento/empatia-no-trabalho/
https://en.wikipedia.org/wiki/Affective_events_theory


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